VirgíniaH Vianna Rocha, Walter Galvani, Tabajara Ruas e Dulcinea Santos fazem comentários sobre o livro Vestígios.

VestígiosVestígio

Romance de Waldomiro Manfroi
Análise de VirgíniaH. Vianna Rocha

Narrativa simples, direta. Não desvia o conflito que instaura em momento algum. O crescendo de descobertas conduz firme a trama ao desfecho; antecipa a provável quebra familiar. Quem incompreendido, filho ou pai? Sacrifício ou sortilégio? Vestígios, frente às raízes desenterradas, contrapõem conflitos até onde o vento sopra sem piedade. Sacro ofício de amparar o pai que desconhece o filho – saga do abandono à misericórdia da assistência. Sortilégio na restauração dos desenganos – do passado ao presente. Muitos filhos aprendem a conviver (sobreviver, quem sabe) com o abandono paterno através do esquecimento. A via geral erguer-se a partir do apagamento das memórias (buracos interiores). Não raro, adiante, se defrontam com contingências exigíveis do amor desfeito (obrigação moral mínima) de alcançar sobrevida digna a quem dispensou, por volúpia ou egoísmo, assistir sua prole. Entre muitos, alguns (poucos) respondem em sentido contrário à negação do encargo. Irredutível, ao fim, a ilusão de vencer o desterro voltar ao presente. O pai, Mario, nunca constituiu família, ao que reafirma, em solilóquio, ao velho companheiro, inerte às palavras. Enquanto o filho deslembra rasgos no monólogo paterno, sua mulher, Flávia, insiste em dar coerência ao tempo em que coabitaram. Outro, Humberto, irmão do asilado, é quem deu curso às desvalias contadas pelo velho. O presumido tio de Eduardo torna-se real e impositivo no discurso de Flávia. A conotação familiar, revelada pelo velho, em nada destrói o vinculo antecedente com Eduardo; pouco importa ele negue desconhecê-la. Cresce a fonte de dissolução da relação conjugal atual, frágil, a cada sábado (pacto circunscreve as narrativas do velho às visitas realizadas). A morte de Mário, em ato inusitado de volúpia, desencrava o passado: – quem contara desídia imputada a outrem é o real protagonista desta. Silenciado, pelo filho, apagamento paterno (passado) que remanesce amordaçado no avivamento (presente), retroalimenta-se contumaz desconfiança da mulher em relação ao marido. Sortilégio? Leitura inquietante. Só a loquacidade do velho instaura desagregação presente? Improvável. Desassossego familiar tem razões fundas e marcas indeléveis; explodem quando expostas em confronto ao sombreado de duas figueiras centenárias. (“Por conhecer esses detalhes da vida de Eduardo, Flávia decidiu pontuar a discussão, para ver se o convencia a abandonar a ideia de não visitar mais o pai no asilo. / Não via motivos para que ele tomasse uma decisão tão radical. Se o velho morresse sozinho, não se sentiria culpado pelo resto da vida? (..) Assim, ele retomaria o convívio com os filhos e melhoraria a relacionamento com a família. (..) Assim que chegaram ao asilo a atendente se apresentou para mostrar-lhes o caminho que os levaria até onde se encontrava o velho. Durante a caminhada (..) não poupava elogios ao pai de Eduardo”. – pg.13, 14 e 15). O legado do velho, a quem viesse cuidar do seu enterro, avassalador: Nada o abismo deu ou o céu mostrou. Só o vento volta onde estou toda e só, E tudo dorme no confuso mundo.

 

Porto Alegre,25 de Outubro de 2013.
VirgíniaH. Vianna Rocha


 

“VESTÍGIOS” do escritor e médico Waldomiro Manfroi, que eu li ontem, de ponta a ponta.
São 225 páginas desse trabalho de ficção do Manfrói a quem aliás, quero perguntar até que ponto ali tem ficção e realidade lado a lado…
Ele se puxou.
Mas, para os amigos que me acompanham aqui no Face, tenham uma idéia do quanto o livro do Manfrói prende a gente, informo que peguei o volume que não é pequeno, tem 225 páginas, às 9h30min da manhã e, embora fazendo interrupções para o almoço e a janta, só soltei-o quando cheguei à última de suas páginas.
Brilhante a história, que te aprisiona e você não quer largar nunca, antes de concluir toda a leitura. Foi assim que se passou comigo.
Olha: recomendo hein!
Comprei na Feira do Livro de Porto Alegre.
Faz parte da Biblioteca 24horas. de São Paulo, a edição é de 2011 e a capa é da Lilia Sentinger Manfrói, esposa do escritor.
É uma história inacreditável Você começa a ler e não consegue parar. Já mandei meus cumprimentos ao Waldomiro Manfrói e estou aguardando novo livro dele. Só peço que me avise antes para que eu possa me programar: tipo assim, a partir das nove e meia da manhã até à meia noite, para concluir no mesmo dia, como fiz com o “Vestígios”.
Parabéns, Waldmiro Manfrói, e cumprimentos à Lilia, pela capa.

Quando li este texto do consagrado jornalista e escritor Walter Galvani, sobre meu novo romance Vestígios, viajei logo nas minhas reminiscências. E, durante o rápido percurso, perguntas e sentimentos foram se entrecruzando. As perguntas do texto foram se ancorando em tênues respostas, como o fazia a balsa de toras à margem caudalosa das águas caudalosas. O primeiro sentimento que me surgiu foi de gratidão e orgulho. Gratidão porque Walter Galvani autor premiado, de Nau Capitânea, Um Século de Poder, A Feira da Gente, Anacoluto do Princípio ao Fim e, agora, com seu magistral A difícil Convivência, diz que leu meu livro todo em um dia. De orgulho, porque afirma que leu, gostou e tornou pública sua opinião. Daí, já me surgiu a primeira indagação: por que nós escritores escrevemos livros? Foram muitos os autores que já disseram por que escrevem livros. Pessoalmente, escrevo para me desafiar a cada nova ideia. Bem, se quando chego ao fim, tenho a sensação de que não fui eu que escrevi aquele texto, é outro departamento. Se penso no leitor enquanto escrevo? Claro que sim. Penso nele para que tenha a possibilidade de reescrever sua própria história com o que está lendo. Se fico feliz quando alguém diz que leu um livro meu e que gostou? Claro que fico, e muito. A segunda questão que Galvani levanta é sobre um tema recorrente para quem conta histórias: quanto tem de real e quanto é ficção? Dias atrás, em viagem de avião, ao ler um texto literário numa dessas revistas que se encontra à disposição, encontrei um termo que não conhecia e muito me fez lembrar na construção do Vestígios. O termo é autoficção. De volta da viagem, procurei nos dicionários e não encontrei o termo. Fui ao nosso ajudante de plantão: google.com.br e lá encontrei o que precisava: uma análise acadêmica sobre a teoria literária autoficção. Percebi então que autoficção é usada para descrever o eu. Que pode ser empregada em fatos verdadeiros romanceados ou até autobiografias. Nas histórias do Vestígios não fui protagonista. Dei voz a um narrador e ele foi montando suas histórias através dos tempos. Algumas delas eu ouvi fragmentos quando era criança, em relatos fantásticos dos mais velhos. Uma delas é a história do balseiro com toras de madeira, que desce o Rio Uruguai. Mas, nas histórias narradas pelos velhos de então sobre os balseiros, tinham começo, mas nunca tinham fim. Por isso ficaram sempre gravadas como um ponto de interrogação. Mas de onde vêm então essas histórias todas? É claro que deviam estar guardadas, por alguma razão, no meu inconsciente. Seriam elas fruto da realidade ou da imaginação? Para sabermos ao certo, precisaríamos contar com o depoimento dos protagonistas e dos narradores dos fatos: Eduardo, Flavia, Mário e Humberto. Pelo fato de os protagonistas Eduardo e Flávia só existirem no livro, não podemos contar com a ajuda deles. Com os personagens/narradores Mário e Humberto também nunca existiram. Fica para o leitor o julgamento da veracidade ou não dos fatos. Não é disso que se alimentam os romances?
Muito obrigado Walter Galvani.


Meu comentário sobre o texto de Walter Galvani

Quando li este texto do consagrado jornalista e escritor Walter Galvani, sobre meu novo romance Vestígios, viajei logo nas minhas reminiscências. E, durante o rápido percurso, perguntas e sentimentos foram se entrecruzando. As perguntas do texto foram se ancorando em tênues respostas, como o fazia a balsa de toras à margem caudalosa das águas. O primeiro sentimento que me surgiu foi de gratidão e orgulho. Gratidão porque Walter Galvani autor premiado, de Nau Capitânea, Um Século de Poder, A Feira da Gente, Anacoluto do Princípio ao Fim e, agora, com seu magistral A difícil Convivência, diz que leu meu livro todo em um dia. De orgulho, porque afirma que leu, gostou e tornou pública sua opinião. Daí, já me surgiu a primeira indagação: por que nós escritores escrevemos livros? Foram muitos os autores que já disseram porque escrevem livros. Pessoalmente, escrevo para me desafiar a cada nova ideia. Bem, se quando chego ao fim, tenho a sensação de que não fui eu que escrevi aquele texto, é outro departamento. Se penso no leitor enquanto escrevo? Claro que sim. Penso nele para que tenha a possibilidade de reescrever sua própria história com o que está lendo. Se fico feliz quando alguém diz que leu um livro meu e que gostou? Claro que fico, e muito. A segunda questão que Galvani levanta é sobre um tema recorrente para quem conta histórias: quanto tem de real e quanto é ficção? Dias atrás, em viagem de avião, ao ler um texto literário numa dessas revistas que se encontra à disposição, encontrei um termo que não conhecia e muito me fez lembrar na construção do Vestígios. O termo é autoficção. De volta da viagem, procurei nos dicionários e não encontrei o termo. Fui ao nosso ajudante de plantão: google.com.br e lá encontrei o que precisava: uma análise acadêmica sobre a teoria literária autoficção. Percebi então que autoficção é usada para descrever o eu. Que pode ser empregada em fatos verdadeiros romanceados ou até autobiografias. Nas histórias do Vestígios não fui protagonista. Dei voz a um narrador e ele foi montando suas histórias através dos tempos. Algumas delas eu ouvi fragmentos quando era criança, em relatos fantásticos dos mais velhos. Uma delas é a história do balseiro com toras de madeira, que desciam pelo Rio Uruguai. Nas histórias narradas pelos velhos de então sobre os balseiros tinham começo, mas nunca tinham fim. Por isso ficaram sempre gravadas como um ponto de interrogação. Mas de onde vêm então essas histórias todas? É claro que deviam estar guardadas, por alguma razão, no meu inconsciente. Seriam elas fruto da realidade ou da imaginação? Para sabermos ao certo, precisaríamos contar com o depoimento dos protagonistas e dos narradores dos fatos: Eduardo, Flavia, Mário e Humberto. Pelo fato de os protagonistas Eduardo e Flávia só existirem no livro, não podemos contar com a ajuda deles. Como os personagens/narradores Mário e Humberto também nunca existiram, fica para o leitor o julgamento da veracidade ou não dos fatos. Não é disso que se alimentam os romances?

Muito obrigado Walter Galvani.

Waldomiro Manfroi


 

Vestígio

Romance de Waldomiro Manfroi
Análise de Tabajara Ruas

Sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Senhores:

Vou ler um comentário que escrevi sobre “Vestígios”, esse inquietante romance de nosso querido amigo Waldomiro Manfroi.  Já aviso que é um comentário impressionista; não tenho formação acadêmica nos segredos da literatura, sou apenas um leitor fascinado desde a infância e um escritor esforçado no dia a dia.

Entretanto, peço vênia para, antes, ler alguns trechos de um sincero perfil que eu fiz do amigo Manfroi para a orelha do seu apreciado “Médicos escritores: uma longa e contínua tradição”.

Diz assim:

O primeiro Manfroi que conheci era professor da Faculdade de Medicina da UFRGS. Não só professor, também diretor da faculdade, em duas gestões. Depois apareceu outro Manfroi, o cientista. Tomei conhecimento de suas atividades na pesquisa de tratamento para doenças do coração, onde ele se destacou. Durante algum tempo nos anos 80 seus trabalhos em hospitais do exterior, especialmente na cidade de Syracuse, Nova York, foram vanguarda e referência na área médica. Sua carreira desenvolveu-se e amadureceu no Hospital de Clínicas da UFRGS, onde foi diretor por duas vezes. Então, um dia, apareceu o Manfroi escritor. Em 1992 lançou “Tempo de viver”, romance onde se percebe claramente a influência de sua atividade profissional.

O que parecia um impulso passageiro, vontade de expressar suas vivências através da escrita, foi tomando forma  diferente nos anos que se seguiram. O Manfroi escritor não seria fugaz e nem apenas um diletante das letras. O Manfroi escritor cresceu lenta e tenazmente, livro após livro, cada um mais desafiador e exigente. De 1992 até a segunda década do novo milênio Manfroi construiu sua persona de artista, criando uma coleção de sete romances que pensam o mundo contemporâneo com profundidade e compaixão.  Sucederam-se títulos como “O último voo” onde relata uma aterrorizante experiência pessoal, quando foi mantido refém na própria casa por um bando de assaltantes. Seguiram-se experiências literárias bem diferentes como “A confissão do espelho”, “Os demônios do lago”, “Férias interrompidas”. Todos esses livros formam um vasto e colorido painel da classe média do sul do país. Escreveu também um volume de contos, extremamente bem sucedido, “Sinfonia às avessas”. E escreveu ensaios, muitos ensaios sobre diversos temas, produto de sua perplexidade com o mundo e sua vontade de respostas.

Finalmente, sua trajetória de intelectual curioso conduziu-o a uma pesquisa rara. Investigar pessoas como ele, Waldomiro, médico e escritor. Por que os médicos escrevem? Essa pergunta lhe era formulada constantemente, e ele confessa que não tinha uma resposta objetiva. Com a força de quem se alfabetizou apenas na adolescência, de quem passou a infância na dureza do trabalho na roça e se tornou um médico, um cientista, um escritor, um conferencista e um incansável viajante, Waldomiro Manfroi mergulhou nas vidas de centenas de homens como ele, médico e escritor, e narrando suas vidas em perfis sintéticos, busca entender as motivações de cada um e as dele próprio ao encarar o silêncio da página em branco.

Respostas nem sempre são mais excitantes do que perguntas, mas acompanhar a aventura existencial destes médicos escritores na prosa concisa do escritor Waldomiro Manfroi sem dúvida é uma jornada instigante. “Médicos escritores: uma longa e contínua tradição” amplia as múltiplas qualidades do Manfroi ensaísta, tornando-o um pesquisador literário. Com este trabalho ele abre a porta de um vasto e inédito campo da escrita. É mais um Manfroi a nos espantar. Mas, se pensarmos bem, é o mesmo Manfroi de sempre: generoso, cordial, atento aos amigos. E um talento único e multifacetado, que poucos imaginam atrás da tranquila figura de médico familiar.

Agora, sua última façanha. Um romance caudaloso, não tanto pelo número de páginas, mas pelo arrebatamento da narrativa. E narrativa é a palavra que tudo explica: Waldomiro Manfroi é um narrador, um contador de histórias incansável e original. Neste livro, “Vestígios”, que agora lança para o público, Manfroi reúne a experiência de uma vida inteira, aliada á imaginação do ficcionista, á tradição dos contadores de história desde as Mil e Uma Noites mais o toque poético do humanista perplexo com a natureza humana.

Nada explica mais a natureza humana do que uma família. É através da voz pouco confiável do pai, velho de 88 anos internado num asilo, que seu filho, sua nora e seus netos tomam contato com os segredos, esplendores e misérias de sua família, os Brocca, imigrantes italianos vivendo nos confins do Rio Grande, como tantos que vieram da Europa. O que o velho Mário Brocca narra, a cada manhã de sábado, é um vasto painel do interior do Rio Grande, com minuciosa descrição dos sofrimentos, sacrifícios, invejas, loucuras, superstições, doenças, casamentos, traições, ódio, sonhos de poder e riqueza, o sexo difícil e sempre com uma sombra de culpa, e, como diz o autor, a tal de morte, naturalmente, sempre a espreitar.

Manfroi vai criando pouco a pouco um clima de estranhamento, onde  nada parece o que é. A narrativa assume um tom exasperado para o leitor, tanto que as peripécias do velho narrador e de seu irmão Humberto se tornam muitas vezes menos importantes do que as reações da nora e do filho ante os fatos que ouvem.

É aí que se cristaliza um fenômeno literário raro e de difícil execução, quando a história se bifurca e o leitor se vê comprimido entre a fantasia desmesurada do velho narrador e o dia a dia medíocre e claustrofóbico de seus descendentes. A nora, Flávia, vai afundando num pântano sombrio de desconfianças, dúvidas, insegurança e rancor: o triste e surdo rancor sem direção e objeto definido. Suas emoções, pequenas e reais, palpáveis para o leitor, contrasta com as exuberantes ações em que o narrador e seu irmão Humberto vivem. Dois mundos dividindo personagens e leitores ao mesmo tempo, mundo real e ficção, esquizofrenia e invenção entrelaçados.

Vamos reconhecer, é difícil façanha, digna de um escritor tarimbado.

A solução encontrada por Manfroi para os acontecimentos não vou discutir aqui em respeito aos futuros leitores da obra. O gesto final de Flávia, a nora, é talvez mais um enigma acrescentado por Manfroi ao conjunto, mas vale lembrar as incertezas de todos respeito aos fatos da Segunda Guerra Mundial, a épica descida de balsa pelo rio Uruguai onde chegam aos confins do Rio Grande e á minha cidade de Uruguaiana, minha e do doutor José Edil, histórias de pescarias e afogamento, contrabando de pedras preciosas e amores malditos unidos a juramentos de vingança.

Todo esse universo Waldomiro Manfroi trata com uma prosa comedida e quase invisível, como se fosse a voz trêmula do velho narrador. Ficamos ouvindo essa voz muito tempo depois de lermos a última página, desconfio que ouvirei essa voz durante muito tempo, quem sabe até quando…

Obrigado, Manfroi


 

Pequeno comentário ao romance Vestígios

A verdade tem estrutura de ficção.
(Jeremy Bentham)

Conta Catão, o Velho, no livro de Cícero, Saber envelhecer, subintitulado Seguido de A Amizade (L&PM Pocket), que Sófocles sofreu uma injuriosa investida dos filhos, quando os dias já lhe avançavam bastante a idade: recorreram à Justiça para interditá-lo, alegando a negligência dele com os negócios da família, devido à dedicação ao ofício da escrita, com as tragédias. Narra que, em Roma, era comum retirar dos pais considerados incapazes, portadores de debilidade senil, o direito de administrar seu patrimônio. Mas, ainda com toda força intelectual que faz do ser humano o Homem par excellence – o sujeito de sua própria fala -, Sófocles foi a juízo e fez ele mesmo sua defesa. Pedira aos juízes lhe permitissem fazer a leitura do Édipo em Colono, desse modo, facultando-lhes fundamento para o veredito com que, meritoriamente, a Justiça declarar-lhe-ia são da mente! Lendo para eles essa peça que acabara de escrever, perguntou-lhes se a considerava obra de um débil! E, assim, conquistou o direito que lhe garantia autonomia e dignidade.

Com essa introdução, quero apontar, desde já, o primeiro tema do mais recente romance do escritor gaúcho, Waldomiro Manfroi – Vestígios. Veremos que o personagem, Eduardo, como costuma acontecer entre os jovens, considera Mário, o velho pai, demente – pelo olhar vago que trazia, pelas histórias abusivamente repetidas que contava e porque, devido à memória falha, ao vê-lo, não o reconhecia como filho; enfim, por admitir, impaciente, a grosso modo, este ponto de vista: o velho é débil. Claro que essa interpretação responde, de imediato, à narrativa linear da fábula, pois sabemos que é pela trama romanesca que, com justo discernimento, podemos apreender a razão que, deveras, o levara a isso.
Ora, Heidegger, na sua leitura acerca do ser e do tempo, faz-nos ver que a linguagem é o habitat do homem, a morada do homem no mundo. Por conseguinte, creio que, enquanto houver laivos – vestígios-, dos fatos vividos conservados pela memória, aí há fala, há desejo! Há aí um homem na terra, posto em existência!
Dois planos narrativos são trazidos nesse romance: o que narra as peripécias de Humberto, transmitidas pelas histórias que Mário, o irmão, conta, e o que discorre sobre a empreitada da nora deste, Flávia, na investigação da verdade nelas contida. Dois personagens, portanto, protagonizam a narrativa: Mário, a quem é imputada a injuriosa velhice, fato partilhado com Sófocles, e ela, cujo sentimento podemos avaliar com atento exame da citação abaixo.

Nessa leitura hermenêutica, preliminar, transcrevo aqui, para análise dessa personagem feminina, esta citação do livro de Cícero, cujo tema é a amizade. Talvez nos ajude a melhor compreender o sentimento manifestado por ela, mulher de Eduardo, experimentado na relação familiar. Diz o sábio filósofo: (…) será por fraqueza e indigência que se busca a amizade, cada um visando por sua vez, através da reciprocidade dos serviços, receber do outro e devolver-lhe esta ou aquela coisa que não pode obter por seus próprios meios, ou seria isto apenas uma de suas manifestações, a amizade tendo principalmente uma outra origem, mais interessante e mais bela, escondida na própria natureza? (p.91)
Esses dois temas tão caros ao filósofo Cícero ocuparam, igualmente, o pensamento do escritor e médico, acadêmico Waldomiro Manfroi. Fio condutor das tensas relações entre seus personagens, a velhice e a amizade tecem a trama romanesca. Vestígios apresenta estilo claro, direto, com vívida voz narrativa manifestando o tom incisivo do libelo.

Assim é a fábula:
Mário, já velho, residente de um asilo, é pai de Eduardo, casado com Flávia, pais de dois filhos, Marcelo e Fabrício. Aí adquirira um hábito: olhava vagamente para longe, enquanto, sentado num banco, costumava falar dirigindo-se ao companheiro, sempre mudo. Qual Sherezade, contava histórias inacabadas, provocando voraz curiosidade à nora e tédio ao filho. Todos os acontecimentos que narrava atribuía-os ao irmão, Humberto. Resumiam-se em dois motivos centrais: a odisseia desse personagem no mundo dos negócios e do exército, com participação na Segunda Guerra Mundial, e suas aventuras amorosas, que não foram poucas, levando-o, constantemente, ao abandono da mulher e da pródiga prole. Sumido, vezes dado por morto, ou de regresso ao Lar, com frequência largava a todos, alegando a ocupação com os negócios, até que saiu de casa de vez. No asilo, Mário não demonstrava ter memória viva para os fatos presentes, o que o levava a dizer a Eduardo que não tinha filhos. Alheio ao que se passava ao redor, não interagia com a nora nas visitas frequentes que lhe fazia. Flávia era ouvinte compulsiva; intrigada, desejava, sobretudo, ouvir o final das histórias, nunca revelado pelo sogro, apesar de suas insistentes súplicas. Alegava que, ouvi-las, era importante, assim ele estaria assegurando a transmissão desse legado histórico familiar. Mas o final das histórias só seria revelado mais tarde. Surpreendentemente, já próximo aos noventa anos, nessa idade em que a libido parece serenar, ele é flagrado morto, na cama com uma mulher. Sem mulher, acreditava que a vida não tinha sentido em qualquer idade. Mário, zelosamente, havia instruído o pessoal responsável pela administração do asilo que seus pertences só fossem entregues à família após sua morte. Nessa ocasião, portanto, ser-lhe-ia revelado o segredo que aquelas histórias mantinham em crescente suspense: não era Humberto, mas ele próprio o seu personagem! Logo depois que toma conhecimento desse fato, Flávia abandona o marido. Longas foram as discussões mantidas com ele, a respeito das suas visitas ao sogro, mostrando-se sempre muito irritada, assaz intolerante com a conduta de afastamento dele do pai, com a sua descrença quanto à veracidade das histórias que o sogro lhes contava.
Agora a trama, tecida em torno da traição amorosa:

Flávia, ouvindo sempre atentamente ao sogro, o que, de fato, desejava era confirmar a suposição que a atormentava no casamento: teria ele transmitido ao filho o legado da luxúria? Por esse meio, ansiava provar a suposta traição do marido, que a fazia sofrer; nessa sôfrega escuta, podia advir-lhe certeza, caso comprovasse que puxara ao pai. Ademais, esta não lhe era incumbência tão difícil, mais difícil fora cuidar da mãe doente. Logo, o sentimento que a regia não era o da grande Phylia dos gregos antigos. Ela não seguia este preceito que a rege, está em Cícero: Em amizade será, portanto, uma lei nada pedir de vergonhoso e não ceder a nenhuma súplica.

O filho, Eduardo, não reconhecido pela instância paterna, antecipa-lhe o tempo de vida, qual pleitearam os filhos de Sófocles, o tempo de vida do homem na terra. Tomando-o, sumariamente, por um débil, ignora-o, em vida. Não ouvi-lo é descrer totalmente de sua digna e devida humanidade. Estava assim inconscientemente determinada a trágica retaliação pelo abandono sofrido.
E Humberto? Não seria esse personagem a ficção que Mário construíra para defender-se da angústia? Personagem fictício, Humberto tornar-se-ia seu porta-voz! Quem sabe, talvez a sabedoria da vida, em fase avançada, houvesse lhe facultado o uso de um dos conhecidos mecanismos de defesa inconscientes, para protegê-lo do duro facear com a Verdade que o punha – vis-à-vis-, diante daquele filho abandonado! Talvez esses versos do Agamêmnon de Ésquilo, na tradução de Jaa Torrano (vv.179-81, Ed. Iluminuras) possa esclarecer-nos a atitude de Mário nessa fase outonal de seus dias: A dor que se lembra da chaga/ sangra insone ante o coração/e a contragosto vem a prudência. Recorrera, assim, talvez, à mentira, um modo singular de contar a Verdade. Aliás, seus netos, Marcelo e Fabrício, certamente porque sem ressentimentos, tinham um modo semelhante de compreender tudo isso. Referindo-se à necessidade de seu velho avô confabular, arrazoavam: Como tinha visto muita coisa na sua longa vida, talvez estivesse sendo irônico ou excêntrico. Só os sábios têm direito a usar da ironia para sobreviver. Ele tem oitenta e oito anos. Só isso é suficiente. Se o que contava era verdade ou não, que importância fazia? (p.100).

Dulcinea Santos, Recife, 31/10/2013